Para poder morrer
Guardo insultos e agulhas
Entre as sedas do luto.
Para poder morrer
Desarmo as armadilhas
Me estendo entre as paredes
Derruídas
Para poder morrer
Visto as cambraias
E apascento os olhos
Para novas vidas
Para poder morrer apetecida
Me cubro de promessas
Da memória.
Porque assim é preciso
Para que tu vivas.
*
De tanto te pensar, me veio a ilusão.
A mesma ilusão
Da égua que sorve a água pensando sorver a lua.
De te pensar me deito nas aguadas
E acredito luzir e estar atada
Ao fulgor do costado de um negro cavalo de cem luas.
De te sonhar, tenho nada,
Mas acredito em mim o ouro e o mundo.
De te amar, possuída de ossos e abismos
Acredito ter carne e vadiar
Ao redor dos teus cismos. De nunca te tocar
Tocando os outros
Acredito ter mãos, acredito ter boca
Quando só tenho patas e focinho.
De muito desejar altura e eternidade
Me vem a fantasia de que Existo e Sou.
Quando sou nada: égua fantasmagórica
Sorvendo a lua n'água.
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Eu te dou os melhores anos de minha vida
Coso a alca de um vestido descosido,
enquanto pregas um prego
numa madeira bichada,
dou chiclete a nosso filho
para parar de gritar,
te mostro a casa cheirando
a pinho e desodorante,
me sorris agradecendo.
E' certo que nao quero recompensa.
Mas te beijo tua boca vomitada
que tem gosto de fome
e de torrada.
*
Exigência
Meu homem eu quero,
enquanto puder,
molhado e úmido
feito mulher.
*
Poema para o namorado
Teu lado feminino me erotiza:
são belos, sensuais e muito caros
certos instantes gostosos, em que te encaro
menos como homem e mais como menina:
quando passas teus cremes para a pele,
ou pões o avental pra cozinhar,
ou quando em mim te esfregas
até gozar os teus gozos sem fim,
ou quando tuas mãos, leves e lésbicas,
desabam como plumas sobre mim.
*
Voyeurismo
Te......olho
me molho
*
Poema ao mais recente amor
Estar entre teus pelos e dedos,
entre tua densidade,
neste transpirar sob medida
aos teus gemidos.
Estar entre teus trópicos,
entre o teu desejo e o meu prazer;
beber parte de teus líquens e teus rios
percorrendo-te da foz até a origem,
e pura a cada amor partir mais virgem.
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Da Poesia
Esculpo a página a lápis
e um cheiro de bosque
então me aparece.
Que a poesia é feita de romas
daquilo que é eterno
e de tudo que apodrece.
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Lua Adversa
TENHO FASES, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.
Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.
E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...
*
Imagem
Tão brando é o movimento
das estrelas, da lua,
das nuvens e do vento,
que se desenha a tua
face no firmamento.
Desenha-se tão pura
como nunca a tiveste,
nem nenhuma criatura.
Pois é sombra celeste
da terrena aventura.
Como um cristal se aquieta
minha vida no sono,
venturosa e completa.
E teu rosto aprisiono
em grave luz secreta.
Teu silêncio em meu peito
de tal maneira existe,
reconhecido e aceito,
que chego a ficar triste
de vê-lo tão perfeito.
E não pergunto nada.
Espero que amanheça,
e a cor da madrugada
pouse na tua cabeça
uma rosa encarnada.
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tema
Deliberadamente
utilizamos
todas as zonas erogenas
submissos
aos animais
que transitavam a pele
submissos
a nossa disponibilidade
imerecida
sacudida
por buzinas
chuvas repentinas confundindo
as marcas de um caminho ja
percorrido
Deliberadamente
entre suor e grunhido
molhado
o ritual foi cumprido
So entao nos devolvemos
*
OBSERVANDO
SIM
HÁ
AS HORAS DE TRÉGUA
QUANDO SE AFIAM
AS FACAS.
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O ano inteiro
aos domingos te sinto mais
sei que estás
sei que me chamas para a rua
que me levas em tuas procuras
apenas para acompanhar-te
e garimparmos os gestos
e as ausências dos vivos
às segundas não me querers
sabes que a luta me toma
te comportas na fotografia
às terças estou conformada
às quartas me deprimo
às quintas me acendo
às sextas já sou domingo
Soco
essa lágrima que dói
esse sufoco
essa boca seca
sempre esse eco
no espaço chumbo
esse galho
que escurece
e cai
*
Arrumando o Quarto
hoje mexi em tuas coisas
em tuas mínimas coisas
em teus pequenos vestidos
tuas sandalinhas
em pedaços de coisas
que ganhavam vida em tuas mãos
ouvi teus passos curtos
te reencontrei em gavetas fechadas
armários intocados
brinquedos mudos
chorei entre tuas roupas
e precisei me dizer
para não naufragar
não mexe aí, mamãe
*
Poesia Viva
precisou que te fosses
para que a poesia
renascesse em mim
enquanto estiveste ao meu lado
ela existia
tinha um corpo que dançava
olhos que abraçavam
mãos que me erguiam
e chamava-se Alice
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Invitation to Miss Marianne Moore
From Brooklyn, over the Brooklyn Bridge, on this fine morning,
please come flying.
In a cloud of fiery pale chemicals,
please come flying,
to the rapid rolling of thousands of small bine drums
descending out of the mackerel sky
over the glittering grandstand of harbor-water,
please come flying,
Whistles, pennants and smoke are blowing. The ships are signaling
cordially with multitudes of flags rising and falling like birds all over the harbor,
Enter: two rivers, gracefully bearing
countless litlle pellucid jellies
in cut-glass epergnes dragging with silver chains. The flight is safe; the weather is all
arranged.
Tbc waves are running in verses this fine morning.
Please come flying.
Come with the pointed toe of each black shoe
trailing a sapphire highlight,
with a black capeful of butterfly wings and bon-mots,
with heaven knows how many angels all riding
on the broad black brim of your hat,
please come flying.
Bearing a musical inaudible abacus,
a slight censorious frown, and blue ribbons,
please come flying.
Facts and skyscrapers glint in the tide; Manhattan
is all awash with morals this fine morning,
so please come flying.
Mounting the sky with natural heroism,
above the accidents, above the malignant movies,
the taxicabs and injustices at large,
while horns are resounding in your beautiful ears
that simultaneously listen to
a soft uninvented music, fit for the musk deer,
please come flying.
For whom the grim museums will behave
like courteous male bower-birds,
for whom the agreeable lions lie in wait
on the steps of the Public Library,
eager to rise and follou through the doors
up into the reading rooms,
please come flying
We can sit down and weep; we can go shopping,
or play at a game of constantly being wrong
with a priceless set of vocabularies,
or we can bravely deplore, but please
please come flying.
With dynasties of negative constructions darkening and dying around you,
wilh grammar that suddenly turns and shines like flocks of sandpipers flying,
please come flying.
Come like a light in the white mackerel sky,
come like a daytime comet
with a long unnebulous train of words,
from Brooklyn, over the Brooklyn Bridge, on this fine morning,
please come flying.
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te procuro
nas coisas boas
em nenhuma
te encontro inteiro
em cada uma
te inauguro
*
lembra o tempo
que você sentia
e sentir
era a forma mais sábia
de saber
e você nem sabia?
*
já estou daquele jeito
que não tem mais conserto
ou levo você pra cama
ou desperto
*
já não temo fantasmas
invoco a todos
que venham em bando
povoar meus dias
atormentar minhas noites
entre tantos
loucos e livres
existe um
que é doce
e que me falta
*
vontade de ficar sozinha
só para saber
se você ia
ou vinha
quando deixou
esse bagaço
no meu peito
pedaço estreito
defeito na mercadoria
do jeito que você queria
*
dizer não
tantas vezes
até formar um nome
*
Se
se por acaso
a gente se cruzasse
ia ser um caso sério
você ia rir até amanhecer
eu ia ir até acontecer
de dia um improviso
de noite uma farra
a gente ia viver
com garra
eu ia tirar de ouvido
todos os sentidos
ia ser tão divertido
tocar um solo em dueto
ia ser um riso
ia ser um gozo
ia ser todo dia
a mesma folia
até deixar de ser poesia
e virar tédio
e nem o meu melhor vestido
era remédio
daí vá ficando por aí
eu vou ficando por aqui
evitando
desviando
sempre pensando
se por acaso
a gente se cruzasse...
*
olhar o mesmo olho
com outros olhos
em outro olhar
o mesmo olho
nos mesmos olhos
o olhar do outro
de olho
*
que importa o sentido
se tudo vibra?
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Olmo
Sei o que há no fundo, ela diz. Conheço com minha própria raiz.
Era o que você temia.
Eu não: já estive lá.
É o mar que você ouve em mim,
Suas frustrações?
Ou a voz do vazio, essa é a sua loucura?
O amor é uma sombra.
Como você chora e mente por ele.
Ouça: estes são seus cascos; fugiram, como cavalos.
Vou galopar a noite inteira assim, impetuosa.
Até que sua cabeça vire pedra, seu travesseiro vire turfa,
Ecoando, ecoando.
Ou devo te trazer o borbulhar das poções?
Isso agora é chuva, esse silêncio imenso.
E este é seu fruto: branco-metálico, como arsênico.
Sofri a atrocidade dos poentes.
Queimada até as raízes
Meus filamentos ardem e ficam, emaranhado de arames.
Meus estilhaços se espalham em centelhas.
Um vento violento assim
Não suporta obstáculos: preciso gritar.
A lua, também, não tem pena de mim: me engole,
Cruel e estéril
Seus raios me arruínam. Ou quem sabe a peguei.
Eu a deixo fugir, fugir
Magra e minguante, como depois de uma cirurgia radical.
Seus pesadelos me enfeitam e me possuem.
Dentro de mim mora um grito.
De noite ele sai com suas garras, à caça
De algo para amar.
Sou torturada por essa coisa negra
Que dorme em mim;
O dia inteiro sinto seu roçar leve e macio, sua maldade.
Nuvens passam e se dissipam.
São estas as faces do amor, pálidas, irrecuperáveis?
Foi pra isso que atormentei meu coração?
Não consigo compreender além.
E o que é isso agora, essa cara
Assassina com seus galhos sufocantes? -
O beijo traiçoeiro da serpente.
Petrifica o desejo. Esses são os erros, solitários e lentos,
Que matam, matam, matam.
*
Corte
Que arrepio -
No lugar da cebola, meu polegar.
A tampa quase se foi
Não fosse por um fio
De pele,
Aba de chapéu,
Branca e morta.
E uma pelúcia rubra.
Pequeno peregrino,
Os indios arrancaram teu escalpo.
Papo de peru, teu tapete
Se estende
Partindo do coração.
Eu piso nele,
Segurando essa garrafa
De espuma espessa.
Uma festa, é isso.
Por essa fresta fogem
Milhares de soldados,
Jaquetas-vermelhas, um por um.
De que lado estão, afinal?
Oh, meu
Homúnculo, estou mal.
Tomei a pílula que aniquila
Aquela fina
Sensação de papel.
Sabotadora,
Kamikaze -
Mancha em sua
Gaze Ku Klux Klan
Babuchka
Escurece e seca e quando
A polpa
Redonda do teu coração
Enfrenta teu minúsculo
Moinho de silêncio,
Você cai -
Na armadilha, veterano,
Menina vadia,
Polegar decepado.
*
GULLIVER
Sobre teu corpo as nuvens passam
Altas, altas e frias,
Um tanto finas, como se
Flutuassem num vidro invisível.
Não são cisnes,
Não têm reflexos;
Não são como você,
Sem cordas te prendendo.
Tudo tranqüilo, tudo azul. Não como você -
Aí, deitado de costas,
Olhos fixos no céu.
Os homens-aranhas te pegaram desta vez,
Lançando e trançando suas teias, frágeis algemas.
Suas trapaças -
Tantas sedas.
Como te detestam.
Eles conversam no vale de teus dedos, como vermes.
Eles te queriam dormindo em seus quartos,
Este dedo e aquele outro, uma relíquia.
Fuja!
Sete léguas, cruze estas distâncias
Que vão dar em Crivelli, intocável.
Deixe que teu olho vire guia,
A sombra deste lábio, um abismo.
*
A Chegada da Caixa de Abelhas
Eu mesma pedi, esta caixa de madeira
Branca e quadrada como uma cadeira, pesada demais.
Seria o esquife de um anão
Ou de um bebê quadrado,
Não fosse o rumor que vem de dentro.
Está fechada agora, é perigosa.
Devo zelar por ela a noite inteira
E não posso ir embora.
Não há saída, é impossível ver o que há nela.
Só uma pequena tela, sem janelas.
Espio pela fresta.
Tudo escuro, escuro,
Pelo enxame zangado de mãos africanas,
Miúdas, prensadas para exportação,
Negro com negro, escalando com ódio.
Soltá-las de que jeito?
O zumbido é o que mais me apavora,
As sílabas incompreensíveis.
São como uma turba romana,
Não são nada sozinhas, mas juntas, meu deus!
Ouço ansiosa esse latim furioso.
Não sou um Cesar.
Só encomendei uma caixa de maníacas.
Posso devolver.
Ou deixá-las morrer, sou a dona, não preciso tomar conta.
Imagino se têm fome.
Imagino se me esqueceriam
Se eu abrisse a tampa e me fosse e virasse árvore.
Um laburno, com suas louras colunas
E anáguas de cereja.
Podiam muito bem me ignorar
Em meu véu funerário, em meu vestido lunar.
Não sou feita de mel.
O que querem de mim?
Amanhã serei Deus, e vou soltá-las enfim.
A caixa é apenas temporária.
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