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Casa de Chá do Luar de Outono - Literatura, Música, Arte
Livraria Luar de Outono

OLGA SEDAKOVA

                
Surely, Maria, it's not just the frames creaking,
not just the panes aching and trembling?
If this is not the garden,
allow me to go back,
into the silence where things are invented.

If this is not the garden, if the frames are creaking
because it never gets darker than this,
if this is not that foreordained garden,
where hungry children sit by the apple trees
and forget the fruit that's been bitten into,

where no lights can be seen,
but breathing is darker,
and the medicine of the night more safe...
I do not know, Maria, my sickness.
This is my garden that stands over me.

Mulheres na Literatura
Livraria Luar de Outono - Carlos Drummond De Andrade
em parceria com:





FLORBELA ESPANCA

Se tu viesses ver-me...

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...

Mulheres na Literatura
Livraria Luar de Outono - Carlos Drummond De Andrade
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ANGELA SHAUN

Encontro

Quisera fosse um suspiro 
que me seduzisse
inteira.

Algo sussurrado
aos ouvidos
que me fizesse
prisioneira.

Quisera mãos
me afagassem
a procura do outro
ser que há em
mim:
pele, pêlos, penugem,
a tua boca
na minha boca
a tua língua a deslizar
como uma serpente
entre meus dentes.

Suor, a transpirar
pelos poros,
pernas a entrelaçar
meu corpo,
olhos entreabertos.

Narinas aguçadas
a captar odores
daqueles seres que
se abraçam
daquele monte de carne,
objeto tridimensional
esculturas móveis
sal e beleza
e a sensualidade,
geografia obscena.

Obscenas também
nossas cabeças
que vão da fantasia
transformando
signos em matérias,
palavras soltas,
desejos que irrompem,
murmúrios,
lambidos.

Um grito transborda.

O infinito...

Mulheres na Literatura
Livraria Luar de Outono - Carlos Drummond De Andrade
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SOLANGE PADILHA

O silêncio parou o horizonte da ilha
Andou areia e corpo
Assaltou olhos inocentes
Bocas diferentes
Sem testemunhas abriu portas
Chamou prazerosamente para o vôo do sexto andar
Em silêncio partiu
Para não ser acusada de mais um assassinato.

*

...a psicologia às vezes é muito chata 
melhor parar com esse chove não molha
lembrei de você um fraime
tremi de prazer
era sonho. Foi sonho pela metade
na outra está voce na minha frente fazendo bico
psicologia
não
sentimentos
é sempre igual.
Sentimentos
pode dar certo mas é sempre incerto.
Esqueci de novo de escrever
e a carta que voce mandou leio sempre
é compromisso.
Psicologia, poesia
- se voce quer ser minha namorada...
Sabe de uma coisa?
estou farta/parca
e a vida roda aqui dentro
como roda moinho
só melhora quando fico quietinha e penso bem baixo
- agorinha pode dar certo
não é psicologia. Só sentimentos.

Mulheres na Literatura
Livraria Luar de Outono - Carlos Drummond De Andrade
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RENATA PALOTTINI

Poema
Não sei nada
Não compreendo nada
E não irei sem nada ter aprendido
Senão as lições da minha própria angústia.
No entanto
Desta lita de punhais que se travou dentro de mim
Continuo a guardar lençóis manchados
Até o dia antes do fim de tudo
Em que hei de expor ao sol os mapas desta viagem

*

Cerejas, meu amor

Cerejas, meu amor,
mas no teu corpo.
Que elas te percorram
por redondas.

E rolem para onde
possa eu buscá-las
lá onde a vida começa
e onde acaba

e onde todas as fomes
se concentram
no vermelho da carne
das cerejas...


Mulheres na Literatura
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SÔNIA ABSY

MULHERES

O MUNDO ESTA AÍ
A DESESPERAR DE NÓS.
SERES DO AMOR E DA DOR,
DO SUBJETIVO E DO IMPULSIVO.
MAS, QUANDO RESOLVEMOS...
SAI DE BAIXO CABRA-MACHO.

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SUZANA VARGAS

COCHICHO

QUANDO ESCREVO
O MEDO É SEMPRE O MESMO: CHEGAR ATRASADA AO QUE QUERO DIZER,
E DE ME DAR POR INTEIRA
NUA
E
FREIRA.

*

NADA COMO NÃO TER PÉS
PARA VALORIZAR SAPATOS.

JÁ SEI QUE NÃO É NOVO: O PROVÉRBIO É MAIS OU MENOS CHINÊS,
E MAIS OU MENOS MEU.

DESCOBRI CAMINHANDO.

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ANGELA MELIM

      				
AMANHÃ
ESTE FOGO CRESCE.

AMANHÃ, TREMOR
AMANHÃ, SUSPIRO.

INSISTE
UM AMOR IMPOSSÍVEL
AMANHÃ

INSISTE,
SIM
UM AMOR IMPOSSÍVEL PODE SER AMANHÃ


*

NO VERÃO SE VÊ O AMOR
NOS TEUS OLHOS
LÍQUIDO DEBAIXO DE PELOS OUSADOS
TRIANGULARES
PERFEITOS PEITOS SEGUROS
EM RISTE EMBORA APONTEM PARA BAIXO
ONDE A PELE FABRICA LINHAS PARALELAS
COM A FUNÇÃO DE DERRETER O SOL EM VÁRIAS FRENTES.
E MAIS ABAIXO O CHEIRO
DE GUARDADO - PEQUENO CALOR ÚMIDO
REVESTE FORMAÇÕES MACIAS
FOFO TAPETE DE FOLHA
PARA SACRÁRIO - FRUTA
DE BRAVA FLORESTA TROPICAL QUE CORTA O SAL DA PRAIA.

*

MATA
A TUA LANÇA,
FALTA,
FORÇA.

O FOGO
DE DESEJO
ME ARDE.

MARTE
BRASA DE QUALQUER LÍNGUA
APAGA
PELO AMOR DE DEUS
A CHAMA
ENCARNADA.

AINDA QUE TODA LUZ SE ACABE.

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MARIZE CASTRO

A TEUS PÉS
PALAVRA
NADA TUDO SOU.

ACOVARDO-ME
LARGO O REMO.

SOU TUA ESCRAVA
SIRVO-TE DO BOM E DO MELHOR

LUSTRO O CÁLICE EM QUE BEBES
RESPLANDEÇO QUANDO ME FERES.

*

"... O que
herdamos
senão abraçar
a verdade?
a alegria voa e
a vida tem pressa.
Lanternas me
iluminam e eu
sonho com o
homem que
perdi enquanto
colecionava
diademas
para musas
adornadas de
nostalgia..."

 

*

"Vinho
Se o queres seco
para molhar a garganta
eu o quero suave
para reiventar
esta chama.
se o queres branco
para velar a virgem
eu o quero
vermelho
do porto
para aportar
as paixões
que me dividem."


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RÉCA POLETTI

CONFISSÃO

A MULHER
DO PRÓXIMO
ESTEVE AQUI.
DESEJEI
ENFIAR MEUS DENTES
EM SUA PELE
MORDER SUA CARNE
CHUPAR SEUS OSSOS.
DEPOIS
ELA FOI EMBORA
EU ME ARREPENDI
POR SENTIR
ESSAS COISAS
ESCABROSAS
E JURO
QUE NÃO SINTO MAIS
SE ELA PARAR DE VIR
DORMIR AQUI EM CASA.

*

CAMINNHANDO

VOU ABOCANHANDO LEVE
AS PELES MORENAS
OU PÁLIDAS
VOU DEITANDO
EM CADA UMA
ME PLANTANDO
EM CADA CORPO
VOU BEIJANDO
BOCAS PRETAS
E VERMELHAS
E TOCANDO AS LÍNGUAS QUENTES
VOU BEBENDO
TODOS OS AMORES
CUSPINDO
TODOS OS VENENOS.


*

CORTES

CORTO CAMINHO ENTRE OS HOMENS
NÃO COSTUMO COLECIONAR ROSTOS
CORTO COSTUMES EM MEU CORPO
NÃO QUERO OS ENFADONHOS CAMINHOS DO HÁBITO
CORTO MEUS ANSEIOS E ILUSÕES
NÃO POSSO PERDER A BELEZA DO EXATO MOMENTO
CORTO MEUS DEDOS DA MÃOS
NÃO DEIXAREI QUE ELES APONTEM MINHA SOLIDÃO.

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AMY LOWELL

DECADE

WHEN YOU CAME, YOU WERE LIKE RED WINE AND HONEY
AND THE TASTE OF YOU BURNT MY MOUTH WITH ITS SWEETNESS.
NOW YOU ARE LIKE MORNING BREAD,
SMOOTH AND PLEASANT.
I HARDLY TASTE YOU AT ALL FOR I KNOW YOUR SAVOR,
BUT I AM COMPLETELY NOURISHED.

* 

VENUS TRANSIENS

Tell me
Was Venus more beautiful
Than you are,
When she topped
The crinkled waves,
Drifting shoreward
On her plaited shell?
Was Botticelli's vision
Fairer than mine;
And were the painted rosebuds
He tossed his lady,
Of better worth
Than the words I blow about you
To cover your too great loveliness
As with a gauze
Of misted silver?
For me,
You stand poised
In the blue and buoyant air,
cinctured by bright winds,
Treading the sunlight.
And the waves which precede you
Riplle and stir
The sands at my feet.

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FÚLVIA DE CARVALHO LOPES

O CÃO DE ANÚBIS

O CÃO DE ANÚBIS MONTA GUARDA COM SEUS VORAZES OLHOS GLAUCOS.
AGUARDA,
APASCENTA AS FERAS QUE MEUS NERVOS GUARDAM
E AO PRIMEIRO ARREPIAR QUE A PELE ACUSA
QUE A HORA PENDULAR ACORDA
ESSE CÃO DE OLHAR DEMENTE
PASTOREIA-O DORSO DE PÊSSEGO
OS POROS
O PÊLO
O PÚBIS PASTOREIA

O CÃO DE ANÚBIS MONTA GUARDA
E MEU JARDIM TRANSLUZ.

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