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II. A arte de vanguarda nos anos 20 Com o fim da guerra civil, as vanguardas artísticas
soviéticas passam a concretizar as profecias dos futuristas, rompendo com a idéia de
arte separada da vida. Investem na criação de objetos funcionais que pudessem ser
produzidos em massa pelas indústrias estatais. Este movimento, que reúne artistas e
escritores, agrupa-se primeiro em torno da Inchuk (Instituto de Cultura Artística) e mais
tarde na revista LEF. Vários destes artistas, dentre eles Alexandra Exter, Vladimir
Tatlin, Várvara Stiepanova e Liubov Popova, desenharam trajes os mais variados para a produção em massa.
Outros adaptaram suas pinturas suprematistas para a confecção de cerâmicas produzidas
pela Fábrica de Porcelana Estatal, com o objetivo da estabelecer uma "harmonia
universal no trabalho decorativo". A maioria destes produtos visava o mercado de
exportação de objetos finos, mas alguns deles foram produzidos em massa para o mercado
interno russo. |
Artistas e arquitetos planejaram novas formas de edificações: Malievitch trabalhou em um sistema rítmico de arranha-céus flutuantes, que nunca pôde ser realizado; Ginsburg e a OSA (União de Arquitetos Contemporâneos), grupo de arquitetos de vanguarda de Moscou, desenvolveram esboços avançados de modernos blocos de apartamentos para a vida comunitária; Melnikov, Golossov e os irmãos Vesnin projetaram clubes de trabalhadores vastos complexos para servir às necessidades recreativas, educacionais e de saúde das grandes comunidades e fábricas.
Em todos os ramos da arte era possível sentir a busca de novas formas que expressassem as novas realidades da vida soviética, caracterizada pela energia que provocavam as inovações.
Entretanto, nem todos compartilhavam deste entusiasmo; havia a preocupação de que tais experimentos, embora bem intencionados ideologicamente, não fossem compreendidos pelas massas. Para o conservadorismo da intelliguêntsia, esta arte não tinha credenciais proletárias. Nem Lenin, nem Lunatcharski haviam acreditado na criação de uma nova arte proletária, preferindo construí-la a partir do que de melhor existia no velho, o que permitia a diversidade cultural. Quando a influência destes dois homens fortes declinou, as opções anteriores se fecharam e uma nova ordem monolítica começou a ser imposta.
A LEF, editada por Osip Brik e Vladímir Maiakovski, reunia em suas
páginas a vanguarda mais significativa da época, incluindo os
construtivistas Alexander Rodtchenko, Várvara Stiepánova e
Anton Lavinski, os cineastas Dziga Viertov e Serguei Eisenstein,
e escritores e críticos tais como Serguei Tretiakov, Nikolai Aseiev,
Victor Chklovski e Semeon Kirsanov. Boris Pasternak também
participou do movimento no princípio da fundação da revista.Publicada no período de 1823-1925, foi revivida como "Novi-Lef" entre 1927-1928, tendo como editores nesta segunda fase Maiakovski e Tretiakov. A revista despontou como um forum de debates em torno de estéticas vanguardistas, concentrando-se particularmente na questão da responsabilidade do artista para com a sociedade e seu papel nesta.
A década de 20 da nova sociedade soviética presenciou enorme expansão no número de teatros, tanto os de vanguarda como os tradicionais. Vsevolod Meyerhold, que voltara da prisão dos anti-revolucionários, assumiu a direção do Departamento Teatral do Comissariado da Educação. Em seu novo trabalho rejeitou a refinada estética simbolista que abraçara no passado, substituindo-a por formas e repertórios revolucionários. Em 1921 encarnou a nova versão do "Mistério Bufo de Maiakovski, dispensando o procênio pela primeira vez e substituindo o palco plano por uma espécie de palco em diferentes níveis; não haviam mais as tradicionais cortinas frontais nem cenários móveis. Este projeto propiciou uma quebra importante na tradição teatral e abriu caminho para posteriores desenvolvimentos do modelo construtivista de encenação. Nos dois anos seguintes, Meyerhold recebeu a colaboração de Popova e Stiepanova, que criaram cenários sugerindo engrenagens de máquinas, andaimes, estradas, rodas, discos giratórios, trapézios e trajes adequados a toda essa ambientação. Os atores treinados pelo próprio Meyerhold deveriam vestir e operar toda essa "parafernália" através de movimentos mecânicos, ou saltando e correndo como atletas ou acrobatas. Para Meyerhold, a verdade das relações e da conduta humanas, a essência do homem, expressava-se não pelas palavras, mas por gestos, olhares, passos e atitudes, acreditando que "a muda eloqüência do corpo" poderia fazer milagres. Foregger e Taírov também fizeram experimentos com as formas mecânicas do construtivismo. A produção desses directores encontraram um equilíbrio de efeitos associativos e visuais, seguindo um caminho inteiramente oposto ao de Stanislávski.
Tanto o futuro como o passado foram retratados pelos artistas através do novo modelo construtivista. Alexandr Taírov foi o pioneiro de um estilo minimalista e expressivo da atuação no palco ao acrescentar mímicas e acrobacias em cena. Meyerhold suplantou este estilo em suas novas produções, como "Le Cocu Magnifique" e "A Morte de Tarielkin, com designs de Popova e Stiepanova. O jovem Serguei Eiseinstein trabalhou como diretor artístico desta últìma. Em "A Terra em Desordem" de Tretiakov, Popova colocou em cena um carro, motocicletas, metralhadoras, telefones, cozinha móvel de campanha e uma máquina combinada de ceifar e debulhar como "adereços". Era a concretização do que se convencionou chamar "teatro teatral".
A excentricidade foi o desenvolvimento lógico do pensamento ilógico dos futuristas. Os artistas introduziam elementos absurdos ou quebras na lógica em seus trabalhos com o objetivo de reestruturar e reorientar a realidade. Utilizaram truques de circo e elementos do music-hall para suas sátiras sociais e políticas, além de princípios derivados do vaudeville.
Artistas gráficos e tipógrafos passaram a desenvolver um estilo de comunicação que deveria ser arrombado, fácil de ler e moderno. Em sua luta contra a especulação à época da NEP, Rodtchenko e Maiakovski trabalharam juntos em cartazes de advertência para lojas e produtos do Estado. Alieksiei Gan e Gustav Klutsis desenharam posters, folhetos e capas de livros.
Quando Lenin morreu, em 1924, não havia um sucessor óbvio; durante os anos que se seguiram, porém, o Secretário do Partido, Josef Stálin, através de manobras políticas, obteve o controle do poder. Em 1928, introduziu o 1o. Plano Qüinqüenal. Todas as energias, culturais e ideológicas, tiveram que se submeter aos seus objetivos: a discordância transformou-se em traição.
A revolução na cultura acompanhou a econômica. Filmes e traduções de autores estrangeiros foram drasticamente reduzidos. Tanto as tendências culturais vanguardistas à esquerda, quanto as à direita (intelectuais burgueses) foram acusadas sem clemência pelos quadros jovens do partido e dos Komsomols, que elevavam em importância os membros das organizações artísticas proletárias. Estas foram encorajadas a atacar o "formalismo" na arte. Formaram-se verdadeiras cruzadas para transformar cada área da sociedade: a sátira era "anti-soviética"; os intelectuais eram "inimigos de classe", e seus experimentos "ininteligíveis para as massas". O primeiro ataque mais violento foi levado a cabo pelos membros do RAPP (Associação Russa dos Escritores Proletários) contra Maiakovski, que o repudiou em tom amargo numa das seções da Associação, justificando seus 20 anos de trabalho criativo com recortes de jornais sobre seus poemas, além de notas e cartas de trabalhadores que apreciavam sua obra.
As vozes estridentes desses grupos proletários combinavam uma rebelião juvenil a opiniões reacionárias da maioria silenciosa. Adotaram a retórica da Guerra Civil: seu gosto era pelo romântico, pelo idealista, pelo realista nenhum artista deveria permanecer imune aos ataques dos "inimigos do povo". Em 1932 o "consenso" já era completo: os "formalistas" do "passado", querendo ou não, haviam reconhecido publicamente seus "desvios de percurso".
Maiakovski suicidou-se em 14 de abril de 1930.
Para ler mais sobre a vida e a obra de Maiakovski
Schnaiderman, Boris - A poética de Maiakóvski, Editora Perspectiva, Coleção Debates, 1971.
Ripellino, A. M. - Maiakóvski e o Teatro de Vanguarda, Editora Perspectiva, Coleção Debates, 1971.
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