Boris Pasternak



Ser famoso...


Ser famoso não é bonito.
Não nos torna mais criativos.
São dispensáveis os arquivos.
Um manuscrito é só um escrito.


O fim da arte é doar somente.
Não são os louros nem as loas.
Constrange a nós, pobres pessoas,
Estar na boca de toda a gente.


Cumpre viver sem impostura.
Viver até os últimos passos.
Aprender a amar os espaços
E a ouvir o som da voz futura.


Convém deixar brancos à beira
Não do papel, mas do destino,
E nesses vãos deixar inscritos
Capítulos da vida inteira.


Apagar-se no anonimato,
Ocultando nossa passagem
Pela vida, como a paisagem
Oculta a nuvem com recato.


Alguns seguirão, passo a passo,
As pegadas do teu passar,
Mas tu não deves separar
Teu sucesso do teu fracasso.


Não deves renunciar a um mínimo
pedaço do teu ser,
Só estar vivo e permanecer
Vivo, e viver até o fim.


(1956)


Tradução: ?


O Dom da Poesia
(Fragmento)


Deixa a palavra escorregar,
Como um jardim o âmbar e a cidra,
Magnânimo e distraído,
Devagar, devagar, devagar.


(1917)


Definição de Poesia


Um risco maduro de assobio.
O trincar do gelo comprimido.
A noite, afolha sob o granizo.
Rouxinóis num dueto-desafio.


Um doce ervilhal abandonado
A dor do universo numa fava.
Fígaro: das estantes e flautas -
Geada no canteiro, tombado.


Tudo o que para a noite releva
Nas funduras da casa de banho,
Trazer para o jardim um estrela
Nas palmas úmidas, tiritando.


Mormaço: como pranchas na água,
Mais raso. Céu de bétulas, turvo.
Se dirá que as estrelas gargalham,
E no entanto o universo está surdo.


(1917)


Tradução de Haroldo de Campos


Ossip Mandelshtam


A Era


Minha era, minha fera, quem ousa,
Olhando nos teus olhos, com sangue,
Colar a coluna de tuas vértebras?
Com cimento de sangue - dois séculos -
Que jorra da garganta das coisas?
Treme o parasita, espinha langue,
Filipenso ao umbral de horas novas.


Todo ser enquanto a vida avança
Deve suportar esta cadeia
Oculta de vértebras. Em torno
Jubila uma onda. E a vida como
Frágil cartilagem de criança
Parte seu ápex: morte da ovelha,
A idade da terra em sua infância.


Junta as partes nodosas dos dias:
Soa a flauta, e o mundo está liberto,
Soa a flauta, e a vida se recria.
Angústia! A onda do tempo oscila
Batida pelo vento do século.
E a víbora na relva respira
O outo da idade, áurea medida.


Vergônteas de nova primavera!
Mas a espinha partiu-se da fera,
Bela era lastimável. Era,
Ex-pantera flexível, que volve
Para trás, riso absurdo, e descobre
Dura e dócil, na meada dos rastros,
As pegadas de seus próprios passos.


(1923)


Tradução de Haroldo de Campos


SILENTIUM


Ainda não é nascida.
É só canção e poesia,
E está em plena harmonia
Com tudo o que é vida.


O seio da onda arfa em paz,
Mas como um louco brilha o dia
E a espuma pálido-lilás
Jaz no azul-névoa da bacia.


Que em meus lábios pairasse
A quietude original
Como uma nota de cristal
Pura desde que nasce!


Volve … poesia e a canção,
Sê só espuma, Afrodite,
Coração, desdenha o coração
Que com vida coabite!


(1910)


Tradução: ?


A CONCHA


Talvez te seja inútil minha vida,
Noite; fora do golfo universal,
Como concha sem peróla, perdida,
Me arremessaste no teu areal.


Moves as ondas, como indiferente,
E cantas sem cessar tua melodia.
Mas hás de amar um dia, finalmente,
A mentira da concha sem valia.


Jazer só a seu lado pela areia
E pouco faltar para que a escondas
Nessa casula onde ela se encandeia
à sonora campânula das ondas,


E as paredes da frágil concha, pouco
a pouco, se encherão do eco da espuma,
Tal como a casa de um coração oco,
Cheio de vento, de chuva e de bruma...


(1911)


Tradução: ?


Morremos na Petrópolis luzente,
Onde Prosérpina nos sobreordena.
No alento um golpe de ar mortal presente,
Uma hora um ano sem vida encena.
Deusa dos mares, temível Atena,
Tira o elmo de pedra tão potente.
Morremos na Petrópolis luzente,
Onde Prosérpina, não você, reina.


(1916)


Tradução de Trajano Vieira


Serguei Iessiênin


Outono


Égua rubra alisando as crinas:
O outono na calma dos zimbros.


Sobre a margem terrosa e áspera,
O tinido azul dos seus cascos.


Monge-vento, passo medido,
Pisa as folhagens do caminho.


E beija o Não-Visível - Cristo,
Chagas vermelhas entre arbustos.


(1914)


Tradução de Haroldo de Campos


Até logo, até logo, companheiro,
Guardo-te no meu peito e te asseguro:
O nosso afastamento passageiro
É sinal de um encontro no futuro.


Adeus, amigo, sem mãos nem palavras.
Não faças um sobrolho pensativo.
Se morrer, nesta vida, não é novo,
Tampouco há novidade em estar vivo.


(1925)


Iessiênin escreveu o poema acima com o
próprio sangue ao se suicidar cortando
os pulsos e se enforcando em seguida.


Tradução de Augusto de Campos

 


ELENA SCHWARTZ

 

Memory of a Strange Refreshment

I tasted once
the milk of a woman friend,
the milk of a sister -
no to slake my thirst
but for the liberty of my soul.
she squeezed the milk from her left
breast into a cup,
and in this simple vessel
it sang, foamed slightly.
It smelled of something bird-like,
something wolf-like and sheep-like,
more eternal than the Milky Way,
it was warm and thick.
Thus once a daughter in the desert
gave her old father to drink,
becoming a mother to him,
and by the force of these alms
turned a coffin into a cradle,
drove away the dark with whiteness.
From the duct next to your heart
you gave me to drink,
I'm no vampire - what a horror -
it foamed, ringing,
sweet, warm, eternal, soft,
crowding time back into the corner.

Maio 1976

 

*


I would take out my delicate rib,
would cut it out of my living body.
O Thou, create out of it for me only
a faithful, tiny, white friend.
Not a husband, not a wife, not something between,
but a angel dressed in a shell,
who would sing consolatory songs
and sit the spiders' strings.
I am not Adam - but I'm even more alone than be.
Would it be hard, if You wanted to?
Create.
I would be so, so happy here,
Agh, a bright, subtle, tiny friend
out of a drop of blood, out of a weak bone.

1978

Tradução: Gerald S. Smith
em: Contemporary Russian Poetry - A Bilingual Anthology
Indiana University Press

 

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