Jukebox - Música, Cultura, Cds, DVDs
Casa de Chá do Luar de Outono - Literatura, Música, Arte
Livraria Luar de Outono
Simone Duarte 

 

Acho que sei dar mais....

Uma alegria me invade
Diariamente,
E não parece tem fim,
Tenho vontade de rir,
E de fazer os outros rirem...

As coisas têm mais gosto,
As coisas agora são mais...
Uma sensação tão boa de conforto,
Que me pego absorta em pensamentos...
Vagando longe...
Calmamente...
Silenciosamente...

Trabalho com gosto,
Ainda que acre seja o sabor do meu mister...
Porque pinço a veia mais amarga do relacionamentos que outrora afetivos,

Defronto-me com as mazelas, os pedaços de restos humanos,
Porque vejo o fim e o torno oficial.

Mas isso passa...
Tudo isso passa....
Abstraio...

E olho com carinho,
Para tudo,
Como quem passa a mão docemente sobre um veludo,
Como quem acarinha fina pelagem,
Olho com sorriso,
Sorrio com os olhos,
E vejo além do que olho,
Porque olho para dentro das coisas.

Hoje mais do que ontem...
Acho que sei dar mais.

Rio, 10.12.98

 

Das noites


Na loucura da vida intensa,
Da paixão que vence,
Da noite em claro,
Dos beijos,
Dos abraços,
Dos momentos em que o céu parece tão próximo,
Das coisas todas que os amantes sentem,
Dos sentimentos tantos e todos,
E muitos e locos,
Dos medos,
Do preenchimento,
Do que vem,
De não saber o que vem,
Mas de seguir...
Querer sentir,
Querer viver o que é bom, o que encanta, estimula, excita,
O que vibra e reverbera durante o dia.
Do eco que fica,
Do corpo ainda úmido...
Da boca ainda molhada,
Da pele marcada,
Do perfume...
Do toque tatua a pele,
Da alegria,
Da bobagem dita,
Da gargalhada linda,
e freqüente... que  observo,
Do gestual,
Do movimento,
Do olhar, dos sons,
Do silêncio,
Do ser...do estar...
Do  querer...
Que não quero  esquecer
São tantas coisas...
E tão intensas,
Como vício...
Tão boas e queridas e,... que me fazem feliz.

*

Paixão

Destino este,
Aos poucos me leva,
Como a brisa leva a folha,
Lenta e carinhosamente,
Na tarde serena,
Na tarde de sol vermelho,
Quente,
Onde o rio corta o vale,
Alto,
Verde,
denso,
Onde eu me ponho a olhar além de onde a vista alcança,
E vejo,
Aqui dentro de mim,
Já no mar sem fim,
Da minha paixão,
Do meu desejo,
Do meu calor,
Do fogo que arde em mim...
Do fogo que arde em mim...
E se alimenta de ti.
Em meio às chamas da paixão,
Que ardem nas tramas da vida,
Nas tramas da minha vida,
Onde  aprendo a me entender,
E abro espaço para você,
Que como o vento... sopra em meu rosto
Uma brisa leve e serena...
Num entardecer lento,
Que embevece,
Que silencia,
Que é lindo.
E que de repente se ergue,
Em um fogo violento,
Fazendo o meu céu que após o entardecer deveria anoitecer,
Arder,
Queimar,
Ranger,
Contorcer,
Doer,
Brilhar,
Como se dia fosse,
Como imensa fogueira,
Na noite que me abraçava,
Em chama sem fim,
Em chama ...em mim...
Em fogo, em paixão,
Em tesão e desejo...
E que me deixa sem fôlego,
Tomada,
Inundada,
Tonta,
Me invade,
Me atordoa....
Me apaixona...me alucina e
me traz a paz.

30.09.98


Tantos poemas...

Tantos poemas....assim...
Que acabo por te acostumar mal,
Mas não resisto ...
Porque vc como a poesia ....
Me invade, me toma,
 
E nas letras que escolho para te decifrar...
Temo apenas pela limitação que elas impõe ao que desejo dizer...
E as vezes as palavras,
Bem verdade que são muitas....tantas...
Mas elas... ainda assim são menos do que sentimos,
Das sensações que permeiam minha alma,
Do que me arrebata...e não consigo dizer....
Bem sei também das minhas limitações quanto ao verbo dito,
Mas me delicio em poder vê-lo escrito,
E sabê-lo você.

Das poesias que faço,
Saem todas elas assim de dentro de mim...
Como um desabafo,
Uma coisa que rompe,
Que arrebenta,
Uma verborragia tremenda,
Em direção ao mar,
Para onde todos os rios e as águas correm,
Convergem,
Assim como os sentimentos e desejos...na trama da vida. 
Os sentimentos são vermelhos  para mim....
E o são assim....porque não sei vivê-los de forma esmaecida...
Só sei vivê-los plenamente....
Intensamente,
Assim como os líquidos  que se espalham e a tudo tomam e
Invadem.

 

*


A PAZ DO SILÊNCIO

A paz do silêncio,
ainda que por alguns instantes,
ainda que seja o silêncio exterior,
ainda que seja só isso,
já me vale,
já me consola,
já me acalma.

O mundo em que vivo,
hoje,
permeado de medos,
tensões, pressões e opressões,
me corroe o sossego.

A cada instante que se passa em minha vida,
me sinto mais acuada,
presa, mas não é culpa de ninguém,
talvez minha,
talvez nem minha,
mas das circunstâncias,
Ahh…não posso me desesperar, nem perder
o prumo,
o rumo,
O controle,
não posso deixar que o espasmo da emoção me domine os sentidos,
me desestabilize,
me faça pisar em falso.

Não posso me deixar enredar pela trama densa da vida,
nem das ansiedades,
alheias a mim, mas tão incrustadas em minha alma,
como nódoa,
necessito ter calma, silêncio e espinha ereta.

Tranquilo é aqui,
apenas cores e passado,
cenas, flores, choros, rostos tingidos de pátina,
telas, vazio cheio de silêncio,
que não interferem,
apenas são.

Que caminhar mas árido que a vida me deu,
o meu,
que duras penas ainda terei de enfrentar,
não aquilato.
Será que vou suportar, será que vou conseguir vencer as vicissitudes dessa vida,
tão linda,
mas ao mesmo tempo tão cruel?

Rio, 09/06/98





A DOR

Ai que dor me toma o peito,
tenho vontade de morrer,
tenho vontade de sair a gritar por todos os lados,
ai que aflição louca me corrompe a alma,
e não poder fazer nada,
mãos atadas e olhos perdidos…
E tão dolorido que impossível descrever…
E tão imenso que mal cabe em mim e transbordam-me as lágrimas,
vertidas dos olhos meus que perderam o brilho e
estão a olhar atônitos a esta realidade tão malévola…

Afastasse de mim, oh meu Deus, este tormento e eu te agradeceria…
por todas as minhas existências futuras…
Afastasse de mim, oh meu Deus, esta dor, este suor frio
que me molha as mãos, eu seria tão feliz …
Afastasse de mim, oh meu Deus, oh meus Deus tanto medo que sinto…

A fortaleza se rende às forças do mar
que se lança ferozmente contra ela,
abrindo-lhe um veio escuro e tenebroso,
que dá medo e não promete a luz…

O sol perdeu o brilho,
As nuvens sumiram do céu azul anil,
meu coração se perde em meio à angústia,
verde das árvores,
é opaco e minha alma padece de lancinante dor,
oh meu santo Pai……diz para mim que nada disso acontece
e que é apenas um sonho mal… diz …

Permitam haja em mim uma esperança por mais tênue que seja,
ela é a minha tábua de salvação,
para que eu não caia em uma tristeza profunda…
Abalo, medo, dor, pena, impotência, fracasso……
Não saber o que fazer, o que pensar, o que dizer…
Como dizer?
Como?

Ai que dor que me assola o peito,
Não vejo mais o meu mar calmo,
vejo-o revolto… incontrolável…
Minha cabeça parece que vai explodir,
um nó na garganta,
uma dor na altura do peito,
minhas mãos estão frias,
não contenho as lágrimas….
Não contenho o medo do pior…
Sufoco,
Ai que dor imensa……
Que me destrói a alma,
Ai que dor……

04/10/97





DESEJO

Ah! meu desejo é maior que tudo...
Impregnado em minha pele como tatuagem...
Tomando meu corpo, que como um animal selvagem,
se debate contra as amarras que o tentam deter e censurar...
O doce e incandescente tremor do desejo
faz com que meu corpo arda em febre,
clamando pelo momento final em que
o último suspiro trará a paz ...
E não haverá quem o detenha...
Somente aquele que se aventurar verá o céu tornar-se brasa
e a mais sólida camada de gelo transformar-se-á em água fluida
escorrendo por sobre meu corpo, úmido, quente...

E o desejo que é proibido permanece absorto em sua própria inconsciência,
porque sabe do seu pecado, pelo simples fato de existir.
Mas no silêncio da noite ele surge delicadamente
e permeia os sonhos dos seus rechaçadores,
porque no íntimo estes sabem que na região mais abissal de suas mentes
habita o proibido, que vez em quando emerge das profundezas
para lhes trazer à luz de suas imperfeições,
traduzindo-lhes que também pecam,
maculando suas consciências decretando suas condenações...

Mas a boca maldita abre-se e engole nossos desejos,
o medo sabota nosso frenesi,
o proibido atormenta nossas consciências
é quando a noite vem sobre nossos pensamentos,
lançando seu manto negro,
que vemos quanto trememos diante de nossos próprios desejos,
porque são sórdidos,
imorais,
despudorados,
inconfessáveis...
levam-nos ao limiar da loucura,
e quando percebemos que podemos ser insanos...
é hora de acordar.



*



Me dá tua mão,
teu corpo,
teu suspiro,
me dá tua alma,
porque eu respiro e preciso te respirar,
te sentir,
te abraçar,
sentir teu corpo,
teu beijo,
sentir teu gosto de brisa leve e serena,
o frescor de tua pele,
a saúde de tua mente.
Me dá um jeito de te amar menos,
porque a loucura me assola o peito e,
tenho vontade de morrer...
morrer de amor, de desejo, de loucura,
porque teu beijo é como louco turbilhão
onde as cores já não estão mais distinguidas,
pois tudo já é uno, ímpar,
tudo é você,
e você é a minha vida.



*



Palavras de amor doem,
se ditas sem verdade,
mais dolorosas que meias verdades de amor,
são as meias mentiras,
que na verdade acompanham as meias verdades...
Pior ainda é o olhar que esconde a falta de amor e
pior que judas, negar por mais de cem vezes...
Se o amor se foi...
Não há como impedir a tempestade que virá tomar seu lugar,
carregando tudo que sobrou de pé,
tragando aquilo que restou miseravelmente...
E quando a tempestade passar,
haverão poças, pedaços de restos humanos que nunca desaparecerão,
porque é da natureza humana impor-se sofrimento insensato e vão,
Como se quisessem provar que viveram intensamente.





DÚBIO

Há sempre um caminho duplo,
bifurcado,
há sempre duas opções,
há sempre a ambigüidade.

Na estrada florida da vida,
haverá sempre a tempestade,
a sacudir as árvores,
bagunçar as flores e lhe arrancar as pétalas,
a desfigurar o tempo,
fazendo o vento apagar as velas.

Assustando os animais,
deixando na boca um gosto acre,
um medo,
um terror.

Um sem saber o que fazer,
uma dúvida,
mãos frias e trêmulas,
pensamento confuso,
sono absurdo,
na tola tentativa de fugir,
fugir de algo forte,
dúvida que incomoda como a ponta de um punhal ao pescoço,
como o ardor de uma ferida aberta,
sentimento forte que nos pega desprevenidos,
na rua, em casa, onde for,
nos faz o olhar perdido,
nos projeta para longe de todos,
nos silencia,
causa-nos inquietação,
uma euforia,
depois nos lança no profundo breu da noite,
que nos sentencia à insônia,
e nos faz a vida passar como em um filme,
nos mostra o caminho bifurcado,
suas tristezas e suas alegrias,
faz-nos ver nossas fraquezas,
quão somos frágeis,
submetidos,
incapazes de decidirmos
sem vacilar,
sem sentir medo do olhar vizinho,
olhar arrevezado,
olhar que condena,
que critica.

São os caminhos da vida,
são as veias do destino,
desse dragão que nos espera a cada esquina,
dessa vida que mais parece vidinha de vila,
onde todos sabem, querem saber,
todos se importam e fazem questão aprovar ou não,
mesmo sem saber porquê.

Dúbio,
duplo, bifurcado,
os caminhos são malhados,
como o mar encarneirado,
agitado,
e estão aí para se escolher…






DUNAS

Quanta areia…
Encher as mãos com ela…
Tão fina…
Vê-la esvair-se por entre as fendas dos dedos,
que deveriam poder segura-las…
Mas não…

São como o tempo…
São como a vida…
São como a morte.

Ninguém pode segurar…

Simone
02.03.98






IDENTIFICAÇÃO
(Soneto)

Tão clara como o céu dos dias que passei em terra lusa
é a minha identidade com a terra do Fado,
alma portuguesa cheia de sentimento,
por ti apaixonei-me.

E me espanta tamanha identidade
pois basta ouvir uma voz portuguesa e dói-me imensa uma saudade,
talvez viva em mim uma outra existência e não sei qual,
mas que é suficiente para mobilizar-me o sentimento, um amor.

Respirei a alma de Portugal e contagiada estou,
minh'alma impregnada lembra-se do instante
em que o avião sobrevoava a cidade,
senti imensa emoção secretamente, vieram-me e não sei explicar porque,
lágrimas aos olhos,
senti que regressava,
sem no entanto nunca ter estado lá.






DELAÇÃO

E sem poder explicar, tento tão somente sentir,
olhava tudo como se já o tivesse visto,
sentia-me a assistir um velho e saudoso filme,
mesmo as pessoas pareciam estranhamente familiares...

O som do Fado,
triste e cheio de sentimentos a me comover e,
estranho-me, por comover-me assim...

Há coisas portuguesas que me são queridas e as tenho em alta conta,
não sei exatamente por quê, mas é o que sinto.
deixo-me sentir, sem explicações.
Sinto sim e não é pouco,
é um amor sofrido e romântico,
fecho os olhos e vejo o D'ouro e, os Rabelos a flutuar em um
doce embalo, e à noite as luzernas a brilhar e refletirem-se nas águas,
que inquietas dançam silenciosamente ao som dos fados
que um dia ouviram o barqueiro cantarolar...
Eu vejo o céu e o mar à beira do antigo cás
das naus dos descobridores,
sinto o cheiro temperado das comidas e dói-me a boca...

São devaneios, lembranças leves e serenas...
Desejosas, desejadas, queridas e lembradas...

Sou mesmo aquela que se lembra e relembra,
Sou aquela que sofre e se delicia com as passagens
e visivelmente sou aquela que demonstra sua
paixão, e sei ao mesmo tempo que tenho um elo que
supera as esferas materiais da minha própria
existência humana e, não temo pois sei que amar
nunca é demais e, amar deliberadamente é a mais
maravilhosa das formas de amar...
sem cobranças e sem compromissos,
amar por amar Portugal...simplesmente.





PARTIR…

Olho para minha sala…
Por tantos anos a ocupei…
Meu nome ecoa pelos corredores… e já tenho notoriedade…
Minha estante… minha mesa…
Meus objetos sobre a mesa…
O cheiro de incenso que foge da minha sala e toma os corredores

O chegar… O ir…
Tantas lembranças permeiam minha mente…
Tantas saudades sentirei…das pessoas que sempre me ajudaram,
dos estagiários e minhas fiéis escudeiras……

Nunca terei nada igual…
Mas o tempo urge e meu tempo aqui findou-se…
Nada mais posso dar a estas pessoas e nada mais tenho a receber…
E preciso sair para outros mares… e ares…

As vezes me bate uma angústia…
Um medo de ser infeliz onde quer que eu vá…
O desconhecido me apavora

A estrada…velha e boa estrada…por onde deslizei
por muitos anos… indo e vindo,
sob chuva ou sob sol…

Sempre entrando pelo mesmo lugar….
Os mesmos rostos…
Tudo será diferente…

Mas na minha lembrança sempre amarei o tempo em que passei aqui…





Poesia (título provisório)

Duras penas são as de um poeta…
Que navega no infindável mar de suas emoções conturbadas
Como se sempre a vida o mantivesse em meio a uma tempestade
E o obrigasse a viver intensamente cada sentimento, emoção, sensação,
independentemente de sua vontade…

A voracidade da vida o devora
A volúpia dos sentimentos perturba-o
mas a realização está nas palavras…
Ele as escreve para viver,
para continuar vivendo…

Quem me dera eu…
Fosse esse poeta que no mundo anda a observar…
Que vê a vida vibrando…
Pungente…
Lancinante…
Fora e dentro de sua alma.

Eu queria me saber um poeta
e que nas palavras… fossem elas doces ou margas…
transmitisse para mim ou para outrem
aquilo que lhe passa dentro da alma,
até mesmo aquilo que lhe atravessa a alma.

Eu disse um dia a um amigo…
Eu vejo a vida com mais cores…
E realmente a vejo assim…
E os seus sabores… são mais concentrados…
Tudo nela para mim é mais forte…
Por vezes isso me exaspera… me dá angústia…
mas não consigo sentir diferente…
às vezes tento não tocar na vida… no afã de não sentir sua força,
mas ela me toca.

Tento em todas as vezes que crio um poema,
ou como queiram chamar...
Dizer de mim as verdadeiras palavras
sem me perder num imenso infinito,
sem parecer fútil, tola ou mesmo piegas...

E cada vez que sai de mim uma palavra,
temo por sua interpretação,
loucas talvez são as razões que me levam a escrever,
e temo por serem uma fraude,
ou sejam nada do que sinto,
ou uma ridícula tentativa de auto-ilusão...
não sei... não sei...

Por momentos me sinto óbvia demais,
d'outros ininteligível por demais...
A ambigüidade me assusta e comungo do caos...

Cada palavra arrancada de minhas entranhas
cada frase como um parto sai
e a criação se mostra eventualmente fugaz...

Doida que sou,
em tantas palavras impregnadas de um medo real de entender o que digo,
que já não mais desejo saber se vou ou se fico,
se sou ou não sou
uma poetisa,
uma escritora de muitas palavras sem sentido ou mesmo
uma iludida...

Dói-me nas entranhas do cérebro o desejo rouco de dizer coisas,
minhas, dos outros, do mundo , da vida...
dizer coisas, coisas e mais coisas...
nada mais...






*******

Saber das decisões que se tomarmos um dia
serão definitivas?
O que na vida é definitivo?
Não saberemos nunca dizê-lo…não sei dize-lo
Porque o infindável mundo dos caminhos que podemos seguir não tem fórmula,
independe de qualquer racionalismo,
por isso o tememos,
decidir é uma tarefa para Hércules,
mas temos que tomar uma das doze tarefas e quem sabe realizá-la…
E nos fazermos de Hércules… mesmo que seja por somente uma vez na vida.

Quantas vezes nossa alma deparou-se com dúvidas tão dolorosas
como a picada de uma víbora,
tantas as vezes em nossas vidas
choramos por não sabermos o que fazer,
rangemos os dentes,
contorcemo-nos de angústia e
derramamos lágrimas doloridas,
que marcaram nossas faces,
ainda jovens,
lançando como nódoa cicatrizes
por onde o curso das lágrimas vindouras
seguirá um dia novamente….

Tantas foram as vezes….
Muitas e incontáveis,
outras tantas esquecidas…
outras tantas esquecidas…

Nem sei mais,
Se choro ou silencio…
Nessa angústia que me rompe os tímpanos
como um ensurdecedor grito,
nessa dor que me arrebenta o peito a todo instante,
nessa noite que se lança sobre meu sorriso,
nem sei mais….

Ai que gritos loucos me doem na alma,
e vejo a toda gente ao meu redor…
ignorantes de minha dor,
ignorantes de minhas dúvidas,
Ai que gritos loucos me cortam a pele,
e me sangram as lagrimas que não posso verter…

Ai que gritos loucos me destroem a cada instante,
e eu a me reconstruir incessantemente
para conseguir vencer a vida,
e nela ver as cores vivas que coloco em minhas telas,
ao tentar diluir e tornar compreensível
esse turbilhão de sentimentos e dúvidas
que vencem a minha existência,
a minha alma,
e tentam sedar a minha resistência.

Tintas, dúvidas, cores,
medos, angústias,
coisas da vida, da minha vida.

Da minha vida…







SEDUÇÃO

A música me seduz…
Sinto uma vontade imensa de ficar quieta…
Silente…
Somente para ouvi-la….

E maravilhada…eu cerro os olhos…
meu coração se lança no compasso e,
bate em harmonia com ela…

Doçura, austeridade,
melancolia, ternura.

Preciso tanto de música e palavras…
Ambas são parte de minha alma…
Necessito crer nelas…
Necessito delas…
Elas me levam a Deus… me elevam… me sublimam…

O silêncio me atordoa,
Ë a morte, a estagnação… o desamparo.

Meu corpo dança a música e,
minha boca canta cada palavra…
Provocando a química,
Transmutação,
Alquimia…
Traduzindo-se em prazer e júbilo.

Sem elas fico sem rumo… sem prumo…
Sou uma nau ao vento… à deriva….
Sou aquela perdida… triste… e que mal olha para si.

Não concebo a vida sem música e palavras…



*



Trágica alma que caminha

E nos horrores da clausura,
sucumbia sua alma,
pouco a pouco degradando-se miseravelmente,
na noite de sua vida inteira,
não brilhava sequer uma estrela,
tampouco a lua,
havia apenas sua aflita voz
clamando por ajuda.
Sua alma em desespero gritava e não era ouvida,
todos os ouvidos lhe eram surdos,
e seu coração perdia os pedaços passo a passo na sua senda...
vertia de seus poros sangue ao invés de suor...
sua pernas cambaleantes não a levavam,
arrastava-se rumo ao nada,
preferia a morte a ter tamanho sofrimento,
Largou seu corpo sobre uma das rochas que encontrou em seu caminho.
Então, ouviu-se um grito,
um grito de lamento,
que percorreu todos os cantos do mundo,
daí apareceu um raio de sol,
que se projetava no corpo que sobre a rocha
jazia inerte,
o mundo foi tomado pelo silêncio,
e o céu lamentou,
tudo que habitava a terra lamentou,
mas o raio de sol persistente
alcançou a mais abissal das profundezas daquela alma,
que de tamanha agonia entregara-se ao destino,
e iluminou-a, aqueceu-a e esperou...
alguns instantes de intensa expectativa preencheram o mundo...
novamente ele se calou,
mas... então... notou-se um singelo movimento,
aquele corpo que jazia inerte trazia novamente calor, luz e glória...
levantou-se da pedra onde prostrara-se,
caminhou e não olhou para trás...
então ouviu-se após longo silêncio
o som do mundo preenchendo tudo,
inclusive aquela alma que jazia tão só e infeliz...
no caminho, via-se tão somente um rastro
dourado de luz...

 

Fotografias

Estou sentada agora à minha escrivaninha,
Olho meu painel de fotografias,
Fragmentos de momentos felizes,
Que não contamos, que não contabilizamos.

Elas ficam expostas,
Gritando a felicidade vivida,
O sorriso,
O abraço,
O olhar brilhante.

Tantos lugares e pessoas...
Tantas sensações reclusas em papel brilhante,
E que tem a função que poucos reparam,
Função de demonstrar que sempre temos momentos belos a lembrar,
Estes que deveríamos contabilizar ante um desagrado qualquer, passando
por cima da autopiedade medíocre que nos depreda o amor pela vida e
pelas coisas, nos torna secos, amargos, tristes e afastados de nossa
própria essência,
Que clama por ser feliz!

As fotos guardam o tempo passado,
Para um tempo futuro,
Em que as olhemos e tenhamos a coragem de assumir a felicidade que
permeou aquele momento.

Tem... tu  que me lês o cuidado de olhar as fotografias,
Observa-as  e vê onde está a essência.

12.05.99

 

Simone Duarte
Simone Duarte

Mulheres na Literatura

Livraria Luar de Outono - Carlos Drummond De Andrade
em parceria com: